Entrevistas

Seguem abaixo algumas entrevistas, artigos em jornais, internet, revistas e afins.

Matérias

Katarina Kartonera é citada em artigo "Xamanismo e irreverência marcam novo projeto do poeta Douglas Diegues", Estadão: Cultura e Literatura.

http://katarinakartonera.wdfiles.com/local--files/entrevistas/Xamanismo%20e%20irrever%C3%AAncia%20marcam%20novo%20projeto%20do%20poeta%20Douglas%20Diegues%20-%20Cultura%20-%20Estad%C3%A3o.pdf


Matéria sobre o portunhol selvagem no jornal O Globo (07/set/2009): http://oglobo.globo.com/cultura/mat/2009/09/03/um-glossario-basico-de-portunhol-selvagem-767456943.asp

Entrevistas

Em 'Sexo vegetal', o escritor Sérgio Medeiros revisita mitos

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*Por Mariana Filgueiras

No princípio eram as árvores. E foram elas que expeliram, ou acolheram, os homens, segundo a gênese indígena. Este momento primeiro de contato do homem com a natureza é homenageado pelo escritor Sérgio Medeiros em Sexo vegetal. Na obra, o autor passeia por textos que recriam tal cosmogonia, “um elogio aos começos”, como ele define. São mitos ameríndios, gregos, latinos, orientais e fábulas bíblicas que redesenham o encontro: seja no toco de madeira que vai na orelha de um xavante ou no carrapicho que insiste em vir na calça jeans, o potencial erótico da natureza é imenso, propõe Medeiros. “Mas faço isso com humor e nonsense”, garante Medeiros.

Você pesquisou muito para escrever o livro?

Na verdade, foi uma consequência de meus livros anteriores: Mais ou menos do que dois, Alongamento e Totem & sacrifício. Neles, pratiquei a literatura como posto de observação, ou seja, a literatura é o lugar de onde posso ver o mundo. Então são livros visuais, imagéticos. A linguagem do “como” (o símile, a comparação) é fundamental. Uma coisa é igual a outra coisa sempre, em todos os meus textos. É assim que consigo descrever o mundo, sentado ou em pé no meu posto de observação, seja verso ou poema em prosa. Então, de repente, percebi que a linguagem do “como” (usada por escritores que admiro muito, como José de Alencar, Clarice Lispector e João Cabral, entre outros) era um tipo de “sexo”. Nasceu então o sexo vegetal, ou minha intuição de um possível sexo vegetal, que posso definir, agora, provisoriamente, como uma maneira de fazer a língua do “como” alcançar novos horizontes (palavra que aprecio).

Por que você evitou o sexo animal? O tema também é seu objeto de pesquisa?

Quis começar com o sexo vegetal, porque, segundo os mitos ameríndios – penso no poema maia Popol Vuh, que eu mesmo traduzi para o português, com o auxílio do americanista Gordon Brotherston – as árvores surgiram antes dos homens. Pensei comigo mesmo que podia fazer uma glosa mítica, comentando começos – o instante em que as plantas acolhem (ou expelem) os homens que estão aparecendo no mundo. Meu livro é um livro que fala de começos, é um elogio do começo. Quando penso no começo, assumo outra posição na história do mundo e olho com olhos primitivos ou selvagens o capim, a árvore, a fruta etc. É como se momentaneamente eu retrocedesse ao instante da cosmogonia. Mas faço isso com humor, nonsense, não é o regresso místico ao instante inicial. É sempre um jogo, uma experiência cosmogônica possível ou viável nos dias de hoje e que está ao alcance de qualquer um. Daí a importância do cenário: junto a cada história, ou glosa mítica, vem um cenário, um mundo vegetal que ora exclui ora inclui o homem.

Qual seria uma representação contemporânea dos mitos ameríndios?

Para mim, a representação contemporânea da mitologia ameríndia é a obra de Lévi-Strauss, o grande recriador dos mitos das Américas. Sua obra História de lince, que cito no livro, é fundamental nesse sentido: reconta em suas páginas centenas de mitos, de forma sucinta e vibrante, relacionando vertiginosamente uns com os outros. Os antropólogos mais jovens têm também muito a dizer sobre os contatos possíveis e impossíveis entre humanos e inumanos. Citarei Philippe Descola e Eduardo Viveiros de Castro, dois especialistas em perspectivismo amazônico, a ciência dos xamãs. Outra referência é o conto “Tantalia”, do escritor argentino Macedonio Fernández, que descreve a relação difícil de um homem com um trevo. O trevo é um parceiro complexo, poderoso. Falo no livro que o trevo argentino é, ou poderá ser, também sádico. Para mim, isso sim é uma recriação atualíssima do sexo vegetal indígena: uma contigüidade intensa, não necessariamente uma cópula, um ato sexual consumado ou perverso. Encontro também muito sexo vegetal na música de John Cage, onde galhos e ramos se agitam, emitem sons, viram música, ao serem tocados pelo compositor ou por músicos profissionais.

Quais estudiosos dos mitos indígenas identificaram/registraram o sexo vegetal?

Ninguém o registrou tão bem quanto Lévi-Strauss. É o Ovídio das Américas. Descola e Viveiros de Castro também oferecem dados preciosos sobre o papel do inumano na vida afetiva dos indígenas. Mas não devemos ficar só na antropologia: Clarice Lispector e Maria Gabriela Llansol, a escritora portuguesa falecida recentemente, também entendiam do tema, e são profundamente indígenas mesmo não o sendo na aparência. O que elas dizem, um índio podia dizer. Manoel de Barros também tem grande noção do sexo vegetal, mas, no seu caso, a relação é mais explícita, direta, uma cópula de fato com as árvores, por exemplo. Pode ser impressionante e muito indígena, sem deixar de ser poético. Não é pornográfico, seguramente. O que imagino e descrevo é diferente: uma continuidade entre o passado mítico e o presente que anuncia uma cosmogonia humilde, uma ilusória (re)criação do mundo, não um gozo pessoal apenas. Manoel de Barros é mato-grossense, nasceu em Cuiabá; eu sou sul-mato-grossense, nasci em Bela Vista, fronteira com o Paraguai. Somos os dois do Centro-Oeste, e a gente do Centro-Oeste é muito dada a relacionamentos com o inumano, seja esta planta, pedra ou bicho. Ney Matogrosso, meu conterrâneo, encena nos seus shows e em pelo menos um dos seus filmes cenas desse tipo. Tetê Espíndola, para citar outra artista da voz, se especializou em reproduzir ou recriar o canto de pássaros. Nada disso surpreende, se lembrarmos que o Centro-Oeste é, a cima de tudo, a terra dos xavantes e dos bororos.

Há tensão sexual entre as plantas? As plantas sentem prazer?

Nunca imagino as plantas sozinhas, entregues a si mesmas. No meu livro as plantas existem, de repente surge o homem ou a mulher no meio delas. Então, a partir daí, há contato, conexão, ou rejeição, espanto, susto. As plantas, digamos, também têm rosto, para usar um conceito de Lévinas que aprecio. Mas o rosto das plantas, é claro, surgiu antes do rosto humano, então elas podem se olhar, se falar, se comunicar. Sei que as plantas proliferam, então deve haver sexo entre elas. Isso é o começo do mundo. Só que, no meu livro, o homem sempre surge inesperadamente no meio das plantas. Então o sexo vegetal, neste caso, para se efetivar, pressupõe um casal, composto de um inumano e um humano.

Por que o sexo vegetal, tal como o conhecemos, é visto como uma aberração?

O meu sexo vegetal é mítico e humorado, embora volta e meia possa cair no grotesco, mas não na pornografia nem na aberração. O meu livro tem até parábola infantil. Acho que muitas passagens são até líricas. O meu sexo vegetal seguramente não é nem quer ser esse outro sexo vegetal que entende a cópula ao pé da letra, transformando o inumano em substituto do humano. No meu sexo vegetal, o humano não é mais o umbigo do universo, como diria Llansol, e não pode mais sujeitar ou explorar o inumano. É claro que sempre poderá haver um humano perverso ou mesmo uma planta perversa à espreita, em toda cosmogonia. Qualquer coisa pode enlouquecer um ser humano. Borges falou disso no célebre conto “O Zahir”.

A certa altura, você faz um alerta: “As plantas não são inocentes”. Por quê?

As cosmogonias poéticas são possíveis. Ou seja, a qualquer momento podemos perder nosso lugar no universo e voltar às origens, ao seio das plantas. Elas podem fascinar. Elas podem olhar para nós e nos paralisar. Como já recomendou Viveiros de Castro, é preciso ter muita diplomacia nessa hora e sair de mansinho. Por isso eu disse que as plantas não são inocentes. Elas podem nos prender para sempre no começo do mundo. No meu livro, os começos são humildes, não levam a situações extremas. Mas, ao mesmo tempo, o livro todo estremece sob o peso dessa ameaça, a ameaça de ficar preso no começo. O narrador, quase sem querer, ou por instinto de sobrevivência, recorreu a certas estratégias para fugir do perigo. Por exemplo, o livro tem um prefácio, o começo de tudo. Mas esse prefácio parece ser o de outro livro e não daquele que se vai ler. (Isso só fica claro numa leitura retrospectiva.) À medida que vai avançando na leitura, o leitor percebe que o narrador não sabe exatamente em que parte do livro está, se no prefácio ou num capítulo avançado… Não sabe e não quer saber. As coisas ameaçam cair no caos. Estou plenamente convencido de que o prefácio não corresponde ao texto do livro e que isso salvou o livro, o fez avançar um pouco. O prefácio é um falso começo, uma tentativa de começo. Talvez todo o meu sexo vegetal seja isso: uma mera tentativa de (re)criar ou (re)começar. Ilusória mas inevitável, segundo a tese que defendo. Um voltar para trás para ir para a frente. Esse vai-e-vem (a mecânica do amor) é a única referência mais explicitamente erótica que o meu livro contém. Gostaria de acreditar nisso. O resto são toques e visões.

*Mariana Filgueiras é jornalista e mestranda em Literatura Comparada pela Universidade de Santiago de Compostela. Esta entrevista foi publicada pela primeira vez no Jornal do Brasil (04/12/2009).


Última entrevista de Wilson Bueno, postada em 31 Maio, 2010.* 

Um presente primoroso para o mundo, em especial para as crianças da África! Após algumas tratativas a editora Katarina Kartonera compartilhou o texto O Gato Peludo e o Rato-de-Sobretudo na versão bilíngue (português-inglês) para os moçambicanos e colaborou com a aproximação entre o escritor e os responsáveis pela Kutsemba Cartão.

A fantasia é a maior arma das crianças…

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1- Quem é o Wilson Bueno?

Um pequeno pintor das tardes (melancólicas) da Floresta. Filho de lavradores, cresci até os 7 anos no sertão profundo do Brasil. O parto de minha mãe quem o fez foi minha avó materna, cortando-me o umbigo com uma colher em brasa, num rancho de chão batido e paredes de barro. Meus primeiros brinquedos foram bichinhos do mato, de estimação – macaquinhos, coatis, jaguatiricas ( uma espécie de gato selvagem). Fazia, de sabugos de milho, pequenas carroças, carrinhos-de-boi.

2- Para que público escreveu “O Gato Peludo e o Rato-de-Sobretudo”?

Eu acho que para crianças de 0 a 100 anos. Para ser entendido ( ou carrollianamente desentendido…) por quem gosta de histórias onde estar a ir é quase o mesmo que estar a voltar e por esse rumo e por esse andado… A visão das crianças onde impera basicamente o nonsense, foi dela que parti para escrever essa fábula em versos que já ganha o mundo, publicada que foi em vários países da América Latina e, agora, na Mãe África, para meu orgulho.

3- “O Gato Peludo e o Rato-de-Sobretudo” têm equivalentes entre os seres humanos?

Sim, é uma sátira, penso, bem do modo como as crianças satirizariam o Poder, as coisas autoritárias, militarmente armadas. O que há de Gato sonhando em ser Rato Marechal por aí é o que não falta… Mas como a volta é só de ida, só voltando na ida e indo na vinda e assim por diante até o infinito… Feito uma dízima periódica… Uma homenagem a Lewis Carroll…

4- Porque decidiu publicar o seu livro em cartão?

Tenho cedido meus direitos autorais aos cartoneros de vários países pois sou um guevarista hasta la derradera ternura. Não confundir com castrismos autoritários e stanilistas, por favor. A utopia do Che é mais para o Cristo do que para o Lenin ou para os sórdidos irmãos Castro…. Guevara não aprovaria absolutamente nada do que ocorre hoje em Cuba, por exemplo. Escapou da Ilha em tempo, para se doar ao mundo. E morreu na mão de ratos fardados…

5- Que mensagem gostaria de mandar às crianças de Moçambique?

Que pensem num mundo mais fraterno, mais solidário, mais generoso e mais despreendido. Que façam da utopia de sonhar o melhor da vida. Que tornem a sofrida Moçambique um país de concórdia, sem divisões de nenhuma ordem. E que usem o saber, a literatura, a fantasia, que é das crianças ( de todas as idades) a maior marca, a sua maior arma…

Nota: O imperador do portuñol selbajem, Wilson Bueno, foi encontrado morto em sua casa no dia 31 de maio, 2010. Fato este que nos deixou inconformados. Lamentamos profundamente a morte de nosso querido "Compá", um expoente escritor da literatura contemporânea e grande colaborador desta editora. Deixou um legado e muitos seguidores. Wilson Bueno, escritor, é paranaense da cidade de Jaguapitã e residia até então em Curitiba/Brasil. Já publicou, entre outros, Manual de Zoofilia, Florianópolis: Noa Noa, 1991, 2ª edição; Mar Paraguayo; São Paulo: Iluminuras, 1992; Pequeno Tratado de brinquedos, São Paulo: Iluminuras, 2ª edição, 2003; A copista de Kafka, São Paulo: Planeta, 2007, Os Chuvosos e O Gato Peludo e o Rato-de-Sobretudo pela Katarina Kartonera.

*Entrevistadores: Saylín Álvarez Oquendo e Luís Madureira http://kutsemba.wordpress.com/

O Gato peludo e o Rato-de-Sobretudo, Wilson Bueno

grátis e-book pdf http://katarinakartonera.wdfiles.com/local--files/livros/O_Gato_Peludo_e_o_Rato-de-Sobretudo.pdf


O poeta em fuga - Entrevista com o poeta André do Amaral, autor do livro Fio no Pescoço, editora Katarina Kartonera.

*Por Liana Cota

André Luiz do Amaral é graduado em teologia (Escola Superior de Teologia, São Leopoldo/RS) e mestrando em Literatura na Universidade Federal de Santa Catarina, com auxílio do CNPQ. Nasceu em Florianópolis (SC), filho de um pastor protestante e de uma professora de biologia. Tem 23 anos. Vive entre a capital catarinense e a pequena ilha de São Francisco do Sul (SC).

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André, sobre a gênese da sua lavoura poética – a realização dos seus poemas – quais os processos predominantes?
Aprendi meu procedimento observando os textos do poeta Sérgio Medeiros, que escreveu o prefácio de Fio no Pescoço porque eu pedi, porque acreditava que ele entenderia melhor do que ninguém o que eu pretendia com o livro. Acho até que sou um tanto plagiário. O que ele faz é descrever. Seus livros não contêm narrativas, mas “descritos”. É isso que procuro fazer. Em Fio no Pescoço essa característica está evidente. Há no livro uma passagem da narrativa curta à completa desintegração da forma. Repousa aí uma nuvem surrealista bastante espessa, que não tenho problema em assumir. Há muito nonsense também, e o Sérgio foi o primeiro a perceber isso com clareza. Outro aspecto importante é o entrelaçamento de referencialidades. Para ler meu livro é preciso ter lido outras coisas, coisas que eu mesmo não li, porque o que quero é lançar o leitor para fora. Acontece comigo como aconteceu com aquele personagem do Kafka que pediu ao empregado para encilhar o cavalo. Quando o empregado pergunta aonde vai o patrão, a resposta é uma frase enigmática: “Fora daqui é minha meta”. Acho que a literatura é esse cavalo encilhado que nos leva a nenhum lugar, mas sempre para fora.

Qual a relação entre a sua vida e sua obra?
A pergunta é mais complexa do que parece. O problema está muito além de saber se há correspondências entre os eventos narrados e os vividos. Por isso, demos uma volta no parafuso. Já vai longe o tempo em que Michel Foucault decretou a morte do autor, mas no último decênio a categoria “autor” voltou com toda a força aos estudos literários. E os blogs, diários, biografias e autobiografias estão aí como testemunho disso. Então, posso dizer que minha presença na obra está mais para um gesto, uma sutil insinuação. Foi o filósofo italiano Giorgio Agamben quem afirmou que a presença do autor no texto é uma presença na ausência. Isto quer dizer que ele continua “inexpresso em cada ato de expressão”. Mesmo as auto-referencialidades são exemplo disso. Um dos melhores contos que conheço é Borges y yo, que está no livro El hacedor. Nele, o autor Jorge Luís Borges se mistura ao personagem, o outro Borges, que é, na verdade, a dimensão autoral, num jogo de espelhos. Aí há uma frase lapidar: “Assim minha vida é uma fuga e tudo eu perco e tudo é do esquecimento, ou do outro”. O autor está constantemente em fuga, portanto. Com Júlio Cortázar, autor que leio muito, acontece o mesmo no conto Axolotl. De figura central e indispensável, o autor assume uma condição fantasmática. Dilui-se no texto. Considero estar presente nos meus textos apenas dessa maneira performática.

A escrita é uma vocação ou um ofício?
Você me pergunta se a escrita, isto é, se a aptidão para escrever é resultado de uma dádiva sobrenatural ou de um aprendizado. Não sei bem. Para Maurice Blanchot a idéia da vocação é das mais perversas, pois não está pautada necessariamente sobre as aptidões. É mais uma questão de impostura, uma fantasmagoria. Concordo com ele nesse e em tantos outros pontos. Para ser um escritor, pintor, músico ou artista plástico é preciso se sobrepor às exigências da vocação, transpor os limites de um destino, daquilo que se espera. Também não penso em literatura como ofício, que é o aprendizado da técnica. Ela é indispensável, mas não suficiente. Há algo na literatura que não se encaixa nessas categorias.

Você acha que o dom também pode ser construído? Como?
Nem vocação, nem oficio, nem dom. A literatura é outra coisa. Mas tentemos responder. “Dom” é uma palavra bíblica, própria aos escritos paulinos, nos quais é utilizada para designar a “Graça de Deus”, a gratuidade de um benefício. Algo que Deus dá aos homens sem que eles mereçam. Essa dádiva, esse carisma, deve ser usado para a edificação comum. Na lógica bíblica, o dom não é construído, mas seve para construir. Se for assim, depende-se mais da boa vontade divina que de um esforço. Ora, a noção de literatura para fins edificantes está superada, e não me vejo construindo alguma coisa nesse sentido. Virginia Woolf certa vez escreveu que talvez não estivesse certa dos seus dons. Não creio que o dom possa ser construído na literatura porque simplesmente não creio que ele exista. Pelo menos não estou certo de que o meu algum dia tenha existido.

Em sua opinião, como a leitura pode levar educadores a tomar consciência de seu potencial criativo e transformador?
Paulo Freire nos alertou que a “leitura de mundo” precede a “leitura da palavra”. Ler o mundo é o primeiro passo. Caso queiramos promover alguma mudança, precisamos saber analisar a realidade em que estamos inseridos e, no Brasil, a educação reflete problemas históricos e culturais bastante graves. Um sintoma dessa situação é o pequeno número de leitores entre os educadores. Os que lêem raramente ultrapassam os limites dos programas curriculares. E cobram dos alunos relatórios sobre livros que eles mesmos não leram. Ou, pior ainda, têm como referências culturais livros de auto-ajuda, best-sellers e revistas semanais. É preciso também perverter a leitura conservadora, canônica. É preciso abrir espaço para o novo. Na frança, os problemas no ensino de literatura, como o atraso histórico nos currículos escolares, promoveu reflexões de altíssimo nível. Por conta disso, Tzevetan Todorv e Antoine Compagnon publicaram dois livros importantes, que podem dar ajudar a entender a necessidade de mudança (TODORV, T. A literatura em perigo. Rio de Janeiro: Editora Difel, 2009; COMPAGNON, A. Literatura para quê?. Belo Horizonte: UFMG, 2009). Obviamente, as mudanças necessárias no Brasil são outras e mais árduo o caminho a percorrer.

Quais livros influenciaram na sua formação?
Quando criança lia o que me davam para ler. A Arca de Noé, do Vinícius de Moraes, foi um dos primeiros. Mas lembro de ter lido também alguma coisa do Monteiro Lobato e alguns livros muito ruins, que nos obrigavam a ler na escola. Além disso, tive uma formação religiosa muito forte, que me fez ler a Bíblia desde cedo e, assim, ter contato com textos basilares da cultura ocidental. Com o passar do tempo descobri outras coisas na biblioteca dos meus pais. Antes dos 13 li autores como Santo Agostinho, Machado de Assis, Nietzsche, que quase não entendia, mas que exercia sobre mim uma fascinação que não sentira até então. Passada essa fase de descobertas, entrei de cabeça em Paul Tillich e sua teologia da cultura. Aí se abriu a janela para a literatura que posteriormente me levaria a coisas espetaculares, embora com certo atraso, como Beckett, Dalí, Cortázar, Mallarmé, os irmãos Campos, e tantos outros, inclusive a poesia que se faz atualmente no Brasil, que é da melhor qualidade.

De que forma o seu livro pode ser utilizado na escola?
A princípio, pode ser lido! Fio no Pescoço pode oferecer aos alunos outra experiência estética, diferente daquela que predomina nas escolas. No que diz respeito aos textos, a experimentação da escrita não-linear e a observação de gêneros híbridos ampliam o que se costuma ensinar. Isto quer dizer que os professores têm também a possibilidade de escapar da cartilha rígida e antiquada que está aí. Sem contar que estudar um livro que está fora do cânone, e que provavelmente permanecerá assim, é uma ousadia digna de ser tentada. Já o formato permite perceber o livro como obra de arte, não apenas como objeto de consumo. As capas de papelão pintadas à mão, as páginas costuradas, a conscientização da rede social que participa da obra, da qual o escritor é um co-performer, instigam o desenvolvimento de projetos semelhantes, autônomos, dentro do ambiente escolar.

*Aluna do curso de Letras na Uniderp-Anhanguera, pólo de São Francisco do Sul/SC.


O jornal do CCE - Centro de Comunicação e Expressão - da Universidade Federal de Santa Catarina- UFSC , divulga a editora Katarina Kartonera. Acesse a entrevista Jornal CCE - 7ª edição p.7 (http://issuu.com/jornaldocce/docs/jor_7/7?mode=a_p)


Katarina Kartonera entrevista Paulo Betti

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De 30/ago a 4/set estivemos no Rio de Janeiro para o evento "A arte e as exceções", onde Evandro Rodrigues, editor responsável da Katarina kartonera, entrevistou Paulo Betti

Confira a entrevista na página de vídeos.

Duela a quem duela! Evandro Rodrigues entrevista Paulo Betti (publicado em 03/10 /09 na versão online do Diário Catarinense - Caderno de Cultura, Florianópolis)

http://www.clicrbs.com.br/diariocatarinense/jsp/default2.jsp?uf=2&local=18&source=a2673499.xml&template=3898.dwt&edition=13246&section=1323

e este é o link do próprio artigo, em pdf:

http://www.clicrbs.com.br/pdf/7094191.pdf


Portunhol Selvagem Evandro Rodrigues entrevista Douglas Diegues (publicado no Diário Catarinense, Caderno de Cultura, Florianópolis)

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http://www.clicrbs.com.br/diariocatarinense/jsp/default2.jsp?uf=2&local=18&source=a2192601.xml&channel=22&tipo=1&section=Geral&template=3898.dwt

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