Evandro Rodrigues entrevista Douglas Diegues

O portunhol selvagem

Linguagem híbrida ou língua anárquica, a mescla de português com espanhol e guarani, usada por Douglas Diegues, paira acima das fronteiras geográficas

Entrevista concedida a Evandro Rodrigues1 em 30/nov/08

O poeta Douglas Diegues, nascido no Rio de Janeiro e radicado em Assunção, Paraguai, é considerado, hoje, o principal expoente do "portunhol selvagem", um movimento que reúne artistas latino-americanos que utilizam uma linguagem híbrida, mescla de português com espanhol e guarani, com leves pitadas de inglês. Ou seja, em seus livros e suas performances, esses artistas empregam uma língua anárquica que paira acima das fronteiras geográficas e culturais. Na realidade, eles possuem uma fala, sempre verborrágica e humorada, mas não uma língua.

Após ganhar matérias em jornais como Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo e O Globo, e revistas como Isto é e Piauí, o portunhol selvagem aportará finalmente em Florianópolis: Douglas Diegues e o artista plástico Domador de Yacarés participarão da Semana Ousada de Arte, a ser realizada na UFSC entre os dias 22 e 26 de setembro. Na Capital, farão performances, darão palestras e lançarão livros artesanais.

Na entrevista a seguir, dada por e-mail, Douglas Diegues, autor do livro El Astronauta Paraguayo, entre outros, discute as linhas de ação do portunhol selvagem e expõe sua visão pessoal do movimento.

Pergunta - O que é e o que significa exatamente o portunhol selvagem? É possível, ou desejável, "oficializar" o portunhol selvagem, transformando-o, por exemplo, numa língua de fato?

Douglas Diegues - Oficializar el portunholito selvagem es uma de las formas que podem ser utilizadas para tentar suicidárlo como a um Van Gogh triplefrontero! Vejo el portunhol selvagem apenas como um fenômeno estético nuebo nel atual panorama. Uma forma nueba de dizer coisas viehas y nuebas de miles de maneras próprias diferentes. Es uma lengua que solo se pode entender usando el korazón. Brota del fondo del fondo de cada um de maneira originale. Es uma lengua bizarra, feia, bela, selvagem, provinciana-kosmopolita, rupestre, post-histórika, sem data de vencimento. Non se trata de mera brincadeira que deu certo. Es uma aventura literária. Um dialeto feliz que non necessita mais ser feliz. Um karnabal cumbiantero de palabras conocidas y desconocidas. Uma liberdade de linguagem hermoza que nunca caberá inteira em los espelhos y molduras de ningum pombero-system literário oficial…

Evandro Rodrigues - Se lhe dissesse que falar e escrever portunhol selvagem é errado, o que você diria?

Diegues - Diria que la afirmacione es absolutamente korreta!!!!!!!!

E.R. - Sabe-se que toda língua possui sua gramática interna e assim funciona. O portunhol selvagem se caracterizaria por um freestyle. Poderia comentar isso?

Diegues - Repito, mais uma vez, e repetirei quantas fueren necessárias: gramatificar el portunholito selvagem es como querer ponerlo em uma gaiola gramatical. Aprendi com Guimarães Rosa y com Manoel de Barros y com Sérgio Medeiros que la gramática e suas leyes son uma espécie de inimiga number one de la liberdade de la lenguagem verbocreadora mais conocida como "poesia". Cada artista de la palabra que se aventure por las selvas de los portunholitos salbahes haberá de inbentar sua gramátika própria, personal, intransferíbelle. Porque el portunhol selvagem romperá sempre los esquemas del pensamento único y de las buenas intenciones unificadoristas de los kapos gramátikos. Ya habemus las gramáticas de las lenguas portuguesas y espanholas. Habemus em Paraguaylândia la gramática del guarani. Penso que los gramáticos brasileiros prestariam um hermozo servicio a la cultura brasileira e gluebolandensis se de repente comenzassem a estudar y ayudar a poner em libro las gramáticas de las mais de 280 lenguas, idiomas ou dialetos de las culturas ameríndias que todavia non foram varridas del Mapa do Brasil… Non sei si o MEC ou o MinC realizam ou fomentam algum proyecto similar. Hay um amplo desconocimento de las lenguas, gramáticas y mitologias ameríndias de las culturas pré-anchetianensis que habitam o território que hoje se chama Brasil…

E.R. - Você representa a editora YiYi Jambo, sediada em Assunção, Paraguai, que faz livros artesanais. Alguns projetos são de inclusão social: a editora compra papelões de catadores que trabalham nas ruas e, ao mesmo tempo, aceita colaboradores para confeccionar e comercializar o material artístico manufaturado. Isso caracteriza, na prática, uma literatura engajada? Existe alguma crítica aos aparelhos de produção cultural ou é uma aposta no diferente?

Diegues - Yiyi Jambo nasce em Paraguay com apoyo cumbiantero de los amigos de Eloisa Cartonera: Cucurto, Maria, Barilaro, Ramona, Cristian di Nápoli, Piña, Julián el portero salvahem, Fabian Casas, que publicaram mio segundo libro, Uma Flor, em Buenos Aires. Quando estive em la kapital Argentina nel 2005, além del permanente afeto caliente, eles me ensinaram como se baila cumbia villera y como se hace um libro cartonero y nel 2006 me convidaram para lanzar la segunda edicione em la Feira del Libro bonaerensis nel 2006 com auspício de la Embaixada do Brasil. Durante esas idas a Baires, Cucurto sempre me perguntava porque yo non fundava um sello editorial cartonero em la frontera. Enton decidi inventar um nuebo comienzo para mim em Paraguaylândia. Me mudei para Asunción. Y um dia lluvioso fundamos Yiyi Jambo, morava enton nel barrio Sajonia, em parceria com el broder Domador de Yakarés y com el apoyo de diversos nuebos escritores paraguayos como Cristino Bogado, Edgar Pou, Javier Viveros y del grande poeta post-porno-vanguardista Jorge Kanese. Estamos em atividade há um ano. Publicamos 25 títulos hasta el momento. Compramos el cartón de los catadores a mil guaraníes el kilo. Vendemos cada exemplar aqui a 15 mil guaranies. Los que quiserem venderlos, ganan 5 mil guaranies por exemplar. Estamos comenzando. Queremos gerar empregos livres y rendas alternativas a los que topem vender los libros cartoneros de Yiyi Jambo com capas que nunca se repetem pintadas a mano por el Domador de Jacarés. Non somos contra nada. Non criticamos velada ou desveladamente a nadie nem a ninguma instituicione. Si hay luta, es em favor de la inclusión cultural y econômica de los hodidos y malpagos. Non tenemos apoyo financeiro de ninguém. Estamos comenzando desde la nada. Recentemente, indicados por Cucurto, Wisconsin University nos hay encomendado um par de títulos y querem também poner las fotos de las capas pintadas por el domatore nel site. Queremos publicar los novíssimos poetas y narradores paraguayos jovenes ou non, desconocidos ou non, pero que tengan vuelo-próprio. Publicamos durante el evento Kapital Mundial de la Ficción la antologia 4 Yiyis, organizada por el poeta, crítico, tradutor, filósofo y narrador Cristino Bogado, que reúne poemas de 4 jóvenes escritoras paraguayas: Carla Fabri, María Eugenia Ayala, Giselle Caputo y Mónica Kreibhon. Em breve publicaremos Russian Roulette, el primeiro libro de Maggie Torres, una de las grandes sorprezas que brota de la nada como flor de las calles de pedras del barrio Trinidad em la zona del rarófilo Jardim Botânico de la selva urbana de la novíssima poesia parawayensis.

E.R. - Como é a relação da YiYi Jambo com as outras editoras envolvidas com o portunhol selvagem, como a Eloisa Cartonera, de Buenos Aires? E qual é a sua relação com sites e blogs?

Diegues - Funciona numa boa. Estamos para somar y celebrar. Non nos interessa competir. Nos interessa criar juntos. Mutiplicar la buena onda cartonera por todas las partes, cidades grandes e pequenas. Non nos interessa acumular lucro. Non temos nem conta bancária. Tudo lo que tenemos es nostro amor-amor. La energia del amor-amor. La cumbia del amor-amor. Ou como prefere dizer el domatore: non temos nada para dar, pero tenemos tutti kuanti para oferecer.

E.R. - Tanto o autor Douglas Diegues como o narrador de El Astronauta Paraguayo se referem a suas produções como "vanguarda primitiva". O que isso significa?

Diegues - Non significa nada. Y pode significar algo. Algo no plural. Algo que non se puede explicar sem reduzir a algo. La energia original de los Orígenes. El poder de la inbención de las palabras sinceramente sinceras. Algo que non pode ser reduzido a um pensamento único. O antigo y el agora a la vez. El futuro mezclado al passado em um libro. La inbención em vez de la cópia. La liberdade sem nome. La liberdade ensaboada. La liberdade xamanístika celebratória de la tatoo roo de la vida. El verso a las vezes como um besso sinceramente sincero que nim las mais hermozas y caras bandidas vendem. El freskor de llamas y rocio de las mentiras verdadeiras escritas ou pintadas com la sangre del próprio korazón.

E.R. - Críticos literários e pensadores, como Barthes, Derrida e Foucault, anunciavam a morte do autor e declararam a autonomia da escrita e da linguagem. O que é para você esse distanciamento entre autor e obra?

Diegues - Respeito y vez em quando leio algo de los três kapos acima citados, mas tudo está mesclado bulliendo dentro de mio korazoncito de astronauta de los chacos. Aprendi com Lezama Lima que um poeta deve se aproximar de las cosas por apetito y deve se afastar por repugnância. Me sinto distante y próximo a la vida y a las palabras. La ficción y la história hoy parecem la serpiente Oroboros que se alimenta de la propia kola. Manhana talvez me parezcam outra coisa.

E.R. - Seu trabalho não correria o risco de encontrar escassa ressonância entre os leitores, por ser pouco "decifrável"?

Diegues - Tento poner toda la ternura caliente que possa em cada uma de las linhas que escrevo. Amor amor sinceramente sincero como Kataratas del Yguazú. Por outro lado, non adianta apenas entender ou non. Entender ou non es muyto cômodo. Por isto digo que hay que sentir também. Ir além. Ousar nuebas maneiras de leer. Usar el entendimento. Y usar el non-entendimento. Non es necessário ser um Péle ou um Papa para entender sem entender estilo San Juan de la Cruz que as vezes ficava non entendendo y toda scienzia transcendendo. Blefo el sentir como post-entendimento. E invento uma berdade falsificada: el astronauta paraguayo es um libro para ser post-entendido. Um libro que vuela. Um libro que foi lido primeiro em Santa Catarina y después publicado com prólogo de suo proto-leitor, el poeta Sergio Medeiros, que segundo me dijo el poeta Manoel de Barros, es uno de los rarófilos gênios com quem ele conviveu durante el tempo em que Sergio morou em la capital de Mato Grosso do Sul. Ah… Sergio Medeiros y Dirce Waltrick do Amarante também colaboraram com 100 dólares para la publicacione de la primeira edicione por Yiyi Jambo em Asunción.

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